Estrela


O início passou faz tempo
E não houve meio que justificasse o nada.
Vidas vazias de metades trocadas.
Lâminas afiadas e cortes dolorosamente superficiais.
No ontem, o beijo quente. Agora o tchau valente.
A besta canção que o rádio toca
Lembra e desmente o sentimento
Ora tão real, ora surrealmente idiota.
Parou de estampar as revistas de fofoca, o casal;
Agora só a separação, na parte policial do jornal.
Notícias veladas, polaróides queimadas,
Em tempos de seca, chuva no sertão e camisa para esconder o rosto.
Na súbita intenção de sorrir:
Ruas a seguir cheias de bifurcações e escolhas.
Mala sobre o asfalto quente da auto-estrada a pedir carona,
Pé esfolado, cansado de andar sobre suas próprias bolhas.
Em miragem, um oásis,
Por vezes, em mente seu rosto disforme aparece.
Sem paz, sem nada. Aqui jaz.
Ao fim do longo dia, um estrela de luz forte ainda se via.
Umbigo, apontando o céu, pondo-se a admirar seu brilho.
Na margem do porto, que remetia - do hino nacional - o estribilho.
No mais, ainda que fosse o cais o dilema,
Seguia a canoa virada como poema.
E, assim, rimas, versos e lágrimas frias
Davam formato a correnteza
A desaguar em outras Marias.
Perdas e ganhos e uma infinidade de mar adiante.
Uns remam, outros andam sobre as águas.
E os destinos, assim,se seguem...

A Dama: linda donzela?


A vida é engraçada, não é?
Cheia de encaixes e junções e depois muita coisa para voltar para o lugar.
Num dia, inverno rigoroso; no outro, 40º de sol na sombra.
E tudo vai ganhando seu devido colorido ou descolorindo.
Há o que se desbote e o que se tinja.
O que não dá para fazer - não com a raça humana - é mutar: isso só nos filmes.
Então podem pedir tudo, menos para que um seja o outro!
No mundo da fantasia o príncipe se eternizou sapo, e de resto: todo o principado foi pra lama.
Perderam o sentido, frases escritas.
E de nada adianta o encantamento se o feitiço pega na própria bruxa.
Escolha feita: eis a bola da vez!
Adversário em vantagem com o campo e a bola, e você...
Melhor ir para o chuveiro, pois o banco de reservas lotou e...
E você não precisa se prestar a esse papel.
Quebrou-se o espelho da alma.
E nesse caso: os anos de azar ficam com quem?
A plebe é rude e o clero inalcançável.
Enquanto isso o fiel se fode e o pagão aplaude.
Nos cantos da cidade...
Em sombreados ou sobrados, em vilas ou vielas
Todas elas - sem exceção de nenhuma -
Tecem os fios que contam a história,
Desde a galinha Dan gola com suas mazelas,
Até as filhas delas.
O que vem para somar, acaba por passar despercebido.
No arrepio frio, o banho gelado encolhe o saco.
E o gemido do homem despedaçado que chora,
Hoje - ainda agora, com uma hora menos -
Já tendo desaprendido a dançar,
Insiste em agonia que decidiu, nele, se instalar.
O tempo já deu: é o fim.
O Rei Momo, o gordo bonzinho, fora trocado
Em seu lugar: o majestoso Valete, mal-humorado.
A Dama, que deveria ser a linda donzela...
Mostrou-se “Cruela”.
No limar do prazer de sentir dor, o que vos fez autor,
Deveras enlagrimou a fronte
Demasiado embabacado, preferiu
Desfazer-se do sim e atravessar a ponte
E lá do outro lado no arco-íris errante
O pote de ouro vazio encontrou.
Cansado de colher as desilusões dos amores,
Sentado, na beira do lago novamente chorou.
De chorar, pôs-se a rir da vida.
Lembrou do desencaixe que causou ferida
E da comédia nem tinha começado ainda.
Sem saber como terminar o dia e cada coisa que viria a fazer nele,
Emudeceu o riso e o pranto.
Se a vida é desencanto, o que se fez canto se desfez.
E agora não é mais riso nem pranto: é nudez.



Raffael Silva

"Me ensina a não andar com os pés no chão"


Era apenas mais um dos comuns dias de aula e trabalho duro – logo cedo de pé, e já tarde exausto - tendo em uns poucos minutos todas as atividades diárias repensadas na cabeça enquanto se aproxima da estação da linha férrea. Na escada - molhada pela forte chuva, de uma comum “louca estação carioca” atemporal - um sombrio torpor invadira todo o seu corpo quando se deparou com um papel dobrado de letra muito familiar.
Olhando, aos cantos dos olhos, viu que na ecoante e vazia estação os poucos presentes não lhe depositavam o olhar. Esgueirou-se a pegar o papel e não resistiu, logo em seguida, por lê-lo.
Ele não constatou nada naquele texto de sentimentos expostos - não era identificável. Não dizia ser uma carta – só sabia que todo o seu corpo ficara paralisadamente arrepiado ao ler cada uma daquelas frases.
“Ela virou meu mundo de cabeça para baixo. Coloriu meus dias pintados de preto e branco. Trouxe luz e dissipou a névoa perfumada que me cercava. Seu olhar me tira o ar e seu sorriso me emudece. Estático, quase que flutuo em tua presença e nem noto. Teu beijo... Ah, teu beijo! Quisera eu poder tocar com suavidade teus lábios com os meus! Se suas mãos quando tocam nas minhas, sua voz quando me chama pelo nome já me estremecem, que dirá teu beijo?
Uma convulsão de sentimentos me atormenta e me inebria. Nada sei; a não ser que me apaixonei. Quando e como - nessa louca jornada de ter apenas te visto - não sei bem dizer ao certo. Mas a lembrança de seus dedos deslizando a franja ruiva para de trás das orelhas quando, pela primeira vez, simultaneamente, nos olhamos, não sai de meus sonhos, desde aquela quinta-feira!
Como gostaria de ter a coragem de dizer que esse nada que sou gostaria de ser tudo para você, e quanto medo tenho de ser repelido como um inseto.
Os valões que já estive ainda podem tentar manter sua influência sobre mim. Mas, na última vez que os visitei: tudo que mais queria era o deleite de sua companhia. A cada minuto, a cada passo, por todo canto desejei estar na limpeza do aconchego do lar e logo poder olhar a única foto que tenho de ti e fazer valer minha noite. De nada adiantavam os flashs, se minha luz não estava comigo.
Quando te vejo a conversar com outro, prefiro virar-me: a ânsia de voar no pescoço dele e gritar que eu a amo; mandando-o manter a distância e diminuir os risinhos fogosos poderia me levar a um ato imperdoável por você e por mim mesmo.
Não sou capaz de matar uma mosca se quer nessa vida, mas por você eu me daria o trabalho de até criá-las, se fosse preciso.
Quero que me note, que se permita me ver, mesmo que molambento, como estou. E que possa essa imagem manifestar, em você, o encantamento que a sua causou em mim.
Queria conhecer teus gostos e cantar para ti a tua canção preferida, presentear-lhe com a edição nova do livro que mais gostou de ler. Mas sem o desejo de comprá-la: que me entenda bem! Pessoas como você - anjos que amam – transcendem os valores mundanos, humanos e sociais. Vocês perpassam o místico e nos acrescentam ainda que imóveis.
Eu - tolo - transformei isso tudo em paixão. Pedi ao mágico que ao ‘fim do espetáculo’, não deixasse meu corpo estirado (por conta da mágica que deu errado) no chão da arena, largado, e que o enfurnasse na cartola junto ao coelhinho e ao pombo. Para que ao público a errante mágica fizesse sentido, era melhor fingir que tudo fazia parte do teatro e que me deixasse então na mão do palhaço, pois esse saberia o que fazer.
Às vezes, me pego a pensar em teu nome e os mais belos circundam minha mente:dos mais doces sabores às mais cítricas frutas.
Em pouco tempo posso dizer que te devo muito: ‘você salvou a minha vida’!
Teus pés fincados na rocha me ensinaram a tirar os meus do chão, nas necessidades.
O que falta para você estar ao meu lado? Seu coração bater por mim, não é verdade!?
Eu te espero (um mês, um ano ou dois) quanto tempo for?!
Que o marcador de páginas dos próximos capítulos marque sempre as páginas que tenham seu nome; e se depender de mim, a partir daquela quinta feira, seria todas.
Mas como nem tudo é como se quer ou deseja, e todos sabem bem disso: ainda vivo o anseio de ser seu.”
Ainda trêmulo se punha a imaginar a fascinabte mulher da carta. Por falta de firmeza já também nos pulsos, essa voltara ao chão; enquanto que imediatamente o trem pôs-se à estação. Duas alternativas: correr e pegar a folha que longe estava ao vento ou embarcar e permitir - quem sabe- que a dona da inspiração deveras encontrasse. No desejo maior de chegar a casa, seus pés deram mais um passo e pela janela do trem, que partira, nada mais ele vira.

Raffael Silva

Um sorriso muda tudo


A dor da despedida ainda assolava o coração. O dia parecia tranquilo e nada levava a um sorriso no primeiro feriado pós-férias. O cenário era o de sempre. Nada a fazer a não ser um filminho novo no PC, baixado na madrugada anterior; pipoca de microondas e refrigerantes para ajudar na distração da monotonia. O tempo ocioso e friorento permitia que a preguiça tomasse conta de tudo. Mas, em meio ao tic-tac das horas, tudo parecia predestinado a mudar.
Terapeuticamente músicas não funcionaram, nem o filminho de romance relaxou, nem a pipoca distraíra. Mas, em algumas horas, o encaixe começou a acontecer. As peças vinham sem esforço. O sol empunha-se firme, hasteado no céu. Mais ainda faltava algo pra fechar o quebra-cabeça, para torná-lo completo.
De tão atarefado de ociosidade, mal pode perceber que lhe faltou tempo de alegrar-se, nessa busca de distrair-se.
Alegria era o que faltava, não distração inútil.Conhecidamente já dito, o milagre vem de fora: os de sempre já não mais o fazem acontecer.
Faltava-lhe vontade de sorrir, ou quem sabe ainda falta tempo para tal.Tarefa bem difícil de cumprir, pois o romance já o tinha feito chorar e o videozinho da música de mensagem de auto-ajuda havia remoído um passado doído de missão não cumprida na dura realidade da vida.
O sorriso milagroso era quase impossível e - ao que se via - faltaria mesmo uma peça no quebra-cabeça, ao fim do dia.
Despretensiosamente uma luz invadia o quarto pela fresta da janela, fazendo franzir o rosto. O dia parecia mesmo empacado. Nem o sol, nem o feriado, nem o mundo de gente dentro de casa parecia fazer sentido.
Só mesmo o sobrenatural para remover a placa de baixo estima e baixo astral que havia caído de pára-quedas naquele bendito cômodo. Nada incomum pra quem está acostumado com a magia do inesperado “efeito surpresa”; mas acontece que sempre, ou melhor, nunca se espera por ele. Tudo bem: é só querer o bem e aceitar.
Feito o sorriso. Como que por magia, um simples “urso-irmão-chuco” – um bicho de pelúcia -, tinha-lhe feito gargalhar. Uma imagem bem cômica do “pé grande” abraçando um estimado bichinho infantil tinha saltado-lhe as vistas e o riso fora incontrolável. O vídeo era narrativo e dotado de mensagens escritas que induziam sorrisos espontâneos, mas a visão do gigante cheio de amor com o peludo era provocativamente cômica.Nada mais faltava, tudo mais vinha a acrescentar.
E quem disse que o que nos parece bom é o suficiente? O mais sempre nos aguarda quando achamos que tudo já esta bom. Ao pé que partimos ao encontro de algo, esse algo vem também ao nosso encontro. E se o sorriso fora possível muito ainda o aguardara.Uma ligação de quinze minutos ainda o faria sorrir e cantar.
Cantar... O ato constante ainda não realizado no opaco dia da marcha, o sete de setembro.Sim, um sorriso muda tudo. E o inesperado é sempre muito bem vindo, e que esse o seja também. Muitos vão indo, enquanto muitos vêm chegando: é natural sorrisos e lágrimas no final. No entreato um mundo de gente, um mar de coisas e uma gama de gostos e cheiros, um molhe chaves e muitas portas a serem abertas, que darão a mil e um caminhos querendo ser desbravados.
Muitas peças podem parecer faltar todos os dias, mas “sorria e talvez amanhã você verá o sol vir brilhando através de você. Ilumine sua face com alegria. Apenas sorria.”



Raffael Silva.

Despedidas

O cheiro de chuva anunciava que o mês das férias findara e que novas despedidas o aguardariam. Já era setembro e tanta coisa havia mudado em um mês, que nem notara que as palavras haviam emudecido.
Tanta gente diferente constituía seu novo habitat natural, que a antiga magia de “os de sempre” já tinha sido esquecida. E novos habitantes do planeta “Ego” já estavam por partir também.
Viagem de trabalho marcada para um paraíso de recife de corais e volta indeterminada. Apenas o passaporte de ida fora-lhe entregado.A vida, com seus vai e vens, tinha levado mais um. Antes, muitos rodeavam o pobre rapaz de férias e, a cargo do tempo, aos poucos - como em cena de novela - todos foram indo embora. Um a um.
Dos lugares passados na vida, onde várias pessoas haviam se juntado num ciclo de amizades infindo; hoje seu próprio eu é o único que restara. Inegavelmente “os de sempre” sempre serão “os de sempre”, mas os “novatos” ocupam o mesmo espaço e a falta de convívio, às vezes, deleta “os de sempre” da memória.
Insistentemente tentou fazer contato com os astronautas, mas só os ETs respondiam e ele se rendeu. Perdido num espaço novo, com seu próprio esforço, tentando se acostumar com a gravidade. Já não mais importam os rumos a seguir, e ele parece determinado a dar o máximo de si para o “hoje”.
Quem o vê o julga, mas também, em momento algum ousou perguntar como estava; então embruteceu. O sorriso largo dera espaço à incógnita eminente. Os passos largos agora já não eram tão contemporâneos, eram - por hora - mais teatralizados. As responsabilidades mudaram; uma gama de novos horários aparecera na agenda de compromissos; tarefas difíceis de serem cumpridas; novos meios de transporte se faziam necessários e a canseira era comum ao fim do dia.
Mas a despedida do novo ainda estava por vir e belo recife de corais ainda aguardara o seu novo companheiro de horas diárias; tanto em férias, quanto fora delas.
O dia ainda não havia chegado e para ele era comum “perder o que não se tinha”, mas dessa vez era diferente: novas nuances tinham sido colocadas na pintura do quadro de dias e horas amigáveis. E ele ainda julgava o quadro muito recentemente feito para ser vendido, mas era o que devia ser feito. Em meio ao claro recife vivo pintado, cores fortes de um peixe - de nome um tanto quanto conveniente – destacavam a beleza da cena descrita. Seu novo companheiro levaria o quadro consigo e ele fazia questão de que aquela pintura ficasse na memória. O peixe era proposital, mas o sentido só ele saberia, todos podiam olhar o quadro e o admirar, mas a certeza que só para seu novo amigo ele faria sentido foi o que o moveu a fazer, para que o tornasse público. Mais como demonstração de carinho ao novo tão chegado e já tão distante, do que como vaidade de um elogio de outro qualquer.
No centro do quadro uma mensagem subliminar, uma moral da história que deve ser compreendida sem ao menos ser dita, e ele disse que assim o faria. Daria o quadro como presente para o seu amigo mochileiro e que não explicaria nada. Esperava que toda a mensagem pudesse ser compreendida pela emoção dos detalhes e significados, e que se assim não fosse jamais teria graça tal quadro. Seria apenas uma pintura opaca de meio coloridamente destacado, talvez até fazendo lembrar uma animação, que não tinha significado naquele contexto.
E saudoso ele foi entregar o presente, então despediu.
Mas as despedidas para aquele rapaz pareciam apenas estar começando.
Ao virar-se pos se a cantar. Os versos da canção pareciam exprimir seus sentimentos e também podiam ser um mantra de força ao viajante.
Ainda de longe se ouvia:
“There's always gonna be another mountain
I'm always gonna want to make it move
Always gonna be an uphill battle
Sometimes I'm going to have to lose
Aint about how fast I get there
Aint about what's waiting on the other side
It's the climb...”



Raffael Silva

Preferir a verdade


Lágrimas tristes desciam-lhe pela face, ele não estava pronto para a notícia. Já era madrugada e ele ainda estava com os amigos a conversar na varanda da casa nova. No meio do bom papo, das cervejas, do cigarro e do carteado, um sobrenome conhecido, dito em meio a fumaça, chamara-lhe a atenção. E questionando-lhes sobre o assunto – que talvez fosse melhor achar que era só um sobrenome comum – descobrira: amanhã seria seu aniversário e, daquela roda de amigos, ele era o único que não havia sido convidado para a festa.
Ele sabia da realidade dos fatos. Sabia que tinha se apaixonado e que não estava sendo correspondido. Sabia que ela ainda mantinha mágoas de seu relacionamento anterior. Mal resolvido por sinal. A única coisa que ele não sabia era que tinha se enganado tanto a respeito de seu caráter. Tinha visto em seu sorriso uma verdade incondicional, que a firmeza de suas palavras confirmava. Jamais ousou pensar que era mais uma farsa do novo século; mas uma das pessoas que te sorriem porque você pode servir para elas em algum momento, com já o foi. Ele sabia que não tinham um relacionamento, mas ele sempre cogitou a possibilidade de tornar viável tal hipótese, e nunca foi interrompido no processo desse pensamento.
O pior para ele foi descobrir-se em mais uma fantasia doída, de sua mente almejando a solidão de ser dois, encontrando-se sozinho numa roda de pessoas. Tentativas de explicação não adiantariam e ele preferiu ficar sozinho. Saiu em direção ao Arpoador e pôs-se a ouvir o barulho da marola em seus muitos vai e vens. As horas passaram e sua expressão facial de indignação - em não acreditar no acontecido - parecia imutável. Atônito nem pode perceber o clarear do dia.
Já era dia 28 de agosto de 2009, dia em que, seu amor – platônico, porém amor -, completaria 27 anos.
O texto estava quase que decorado: “Bom dia, amor. Estou ligando para te desejar feliz aniversário. Não quero que fique triste, pois não vai ter festa essa ano. Az vezes nós temos mesmo que fazer coisas diferentes, provar outros gostos. Só quero que saiba que ainda aguardo a oportunidade de te amar, respeito seu tempo, sua vida, você. Um lindo dia. Sei que hoje vai ser meio apertado, então te vejo amanhã.”
E os minutos seguintes trariam ao rapaz, novos sentimentos, emoções, gostos, sons e temperatura. O sol já mostrava sua força, num de seus poucos momentos de visibilidade no céu, no mês de férias que já estava por findar. Aos poucos, o calor do sol pareceu ir desgelando o iceberg. Os movimentos de seu rosto pareciam ter voltado e a embriaguês havia passado. Lá estava ele de pé, ainda moribundo.
Sempre é difícil mexer na “Caixa de Pandora” das emoções. Como humanos, ora benévolos ora maléficos são nossos sentimentos e saber o que fazer num momento de decepção é quase impossível. Uns tendem à vingança outros ao cárcere de manterem-se acorrentados a ilusão, ao preferir a liberdade encolhida da solidão. E assim cada um vai levando a vida.
O rapaz aparentemente tinha “perdido um braço”.
Diz-se que uma “mentirinha” pode não fazer mal algum, principalmente se ela faz alguém se sentir bem. A opinião do rapaz não era de concordância com isso. Ao tê-lo feito acreditar na possibilidade de um laço, talvez, levando-o a crença do “Mito do amor perfeito” – o de contos de fadas, idealizado, onde tudo é possível -, aquela menina-mulher acabou devolvendo ao rapaz uma esperança, antes nele de chama já apagada. Antes dela, ele já não mais ouvia as canções de amor e nunca havia se emocionado ao ver um musical da Broadway. O perfume das rosas era comum e o céu era só azul.
Existem pessoas que povoam a vida de outras ao ponto de fazê-las diferentes. Devolvendo-lhes sonhos, fazendo abrir os olhos para o que há em volta o tempo todo e que passa imperceptível na correria do dia a dia. Ao pé que existem pessoas que fazem a diferença, existe outras que as forjam. Gente capaz de passar a imagem do que não é, em busca de algo que não se pode presumir o que se seja.
No caminho de fazer o que é certo, ou do que se julga ser; alguns tomam atitudes de caráter duvidoso, que não podem ser julgados, mas que poderiam ser evitados e tratados com verdade. Isso independe do sentimentalismo emocional apelativo e depende da sinceridade de ser quem se é. É melhor não iludir com uma possibilidade irreal do que fazê-lo só para agradar e em algum momento se ver puxando o tapete depois. A verdade impede a queda, porque não estende o tapete vermelho como passarela. Ela não faz o sorriso perder o brilho, ela devolve o brilho aos olhos.
Não mesmo, ele não deve ligar para desejar a ela os parabéns pelo dia de hoje.
Fica a beleza da válida citação poética:
“Ser capitão desse mundo; poder rodar sem fronteiras.
Viver um ano em segundos; não achar sonhos besteiras.
Encantar-se com um livro que fale sobre a vaidade.
Quando mentir for preciso, poder falar a verdade.”

Raffael Silva.

Um mundo carente de gente

- O mundo está carente de gente!
- De gente?(Risos) Olhe em volta! Gente aqui não falta.
- Não é isso. Você não entende! Deixa.



Os tempos mudaram e as voltas ao mundo já não duram mais 80 dias. A tecnologia avança e tudo fica diferente. Às vezes se confundem robôs e homens, com tamanha evolução científica. Em contrapartida as pessoas estão tão robotizadas que essa confusão se facilita. O que diferencia o homem do robô é a emoção, o pensamento, o coração, os conceitos de vida e a fé.
Pensando assim, fica fácil entender a conversa ouvida nas escadas do metrô. Era dia frio no Rio de Janeiro e o mês de férias ainda não findara. Lá estavam eles conversando silenciosamente. Meio que estremecidos pela conversa, algumas frases, ditas com mais raiva, saíram altas. Nelas a constatação de uma realidade dura e cruel. Não se diz por aí motivos para tais comportamentos; mas é notória a falta de humanidade no “ser humano” hoje em dia.
O ser fica nítido, o humano anda fugindo por aí. Quem sabe não esteja ele dando as benditas voltas ao redor do universo. Estão em toda parte e suas nomenclaturas são duvidosas. Aparências humanas; mentes vazias.


- Realmente não da pra entender. Acho que você surtou!
- Se as pessoas com quem convive são reais: parabéns. Eu acho que só preciso do mesmo. To cansado de gente sem nada pra oferecer; gente que não sabe o que é; a que veio e nem o que está fazendo. Que julga ser bom o que se vê e não o que se é. Gente maluca, gente oca. Não preciso disso. Sinto falta de gente de verdade; com sonhos; anseios; vontades. De gente que sabe que essas coisas vêm do coração e não são simples desejos racionais, passageiros. Que uma vez realizados passam a não ter existido. Muito pelo contrário: essas coisas que motivam a viver, quando se realizam acredita-se ser só o começo, não o término. Entende-me agora?


O costume torna difícil a compreensão que seria óbvia, pois é nítida a comodidade na qual o mundo vive. A relação interpessoal tem prazos para ser estabelecida, hoje em dia.Ela dura o tempo do desejo do outro, ou o tempo do contrato de trabalho. Não se criam mais vínculos. Laços afetivos são mantidos apenas com a família mais próxima, isso quando se sabe o que é família ou quando se a considera. Os valores mudaram ou deixaram de existir e o desejo tomou conta do mundo.
A “Luxúria”, um dos sete pecados capitais, virou a música que embala o mundo e tem anos que não sai da lista das mais tocadas. Quando não está em primeiro, pode ter certeza que perdeu pra “Ganância”. Mas essa, acredite, fica quase sempre em segundo plano. Canções de amor não tocam mais nas rádios.


- Preciso te apresentar alguém, então. Acredito que posso mudar todos os teus pensamentos. Ou, ao menos, te devolver a fé na humanidade. Se existe um alguém, devem existir outros. E sei, em exato, que pode fazer isso.
- Pago pra ver.


Um conceito regrado precisa cair pra ser confirmado. Correto? Ele estava mesmo disposto a mostrar que nem tudo está perdido. Que a janela estava aberta, quando a porta se fechou. Eles saíram do campo de visão. E suas vozes já não mais podiam ser ouvidas.
Na verdade: triste é não conseguir enxergar corações ou perder a esperança de encontrá-los? Duvidar do que se vê, ou julgar todos pela maioria? Não dar espaço as possibilidades ou sucumbir aos desejos passageiros de realizar-se? Não ver a graça de viver ou deixar de sorrir?
O erro deve estar em achar que o único caminho é a porta da frente. No quarto um armário cheio de bons guardados espera a oportunidade de ser revirado, remexido e descoberto. E ainda que não esteja nas portas o que procuras, se utilize das gavetas. Todos os sessenta segundos seguintes são oportunidades de descobertas. Não as busque incessantemente, apenas permita-se. Quando buscamos algo que muito queremos, podemos ser induzidos - por nós mesmo - a acreditar erroneamente em qualquer situação falsa, quando tudo que se quer achar a verdade. E a verdade não vem só do olhar. É possível percebê-la até em palavras ou ainda em escritos.
Ainda existem pessoas que fazem o mundo valer à pena, a proeza está em mantê-las consigo.

Parafraseando:
“Depois, que o que é confuso te deixar sorrir, tu me devolva o que tirou daqui, que o meu peito se abre e desata os nós. Sem mais, a vida vai passando no vazio. Estou com tudo a flutuar no rio, esperando a resposta ao que chamo de amor”

Raffael Silva